O hiperactivo do Chega (2025)

José Diogo Quintela

Seguir

×

Siga José Diogo Quintela e receba um alerta assim que um novo artigo é publicado.

Colunista do Observador

Gostava de ler um romance de Graham Greene em que Marcelo, o europeu céptico, denuncia os objectivos do americano ingénuo. Uma sequela a O Americano Tranquilo chamada O Português Frenético.

Há dias, na Universidade de Verão do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa chamou “activo russo” a Donald Trump. Segundo o Presidente português, o seu homólogo americano é um agente recrutado pelo antigo KGB para servir os interesses da Rússia. Ainda não sei bem o que pensar desta acusação feita por um Marcelo. Por um lado, enquanto cidadão português, sinto orgulho em ser representado por um Presidente que não tem medo de dizer o que lhe vai na cabeça, sem calculismos e subserviência a ninguém. Por outro lado, enquanto apreciador de livros de espionagem, estou desiludido pela forma rudimentar como Marcelo resolveu desmascarar Trump. É literariamente pouco sofisticada. Onde John Le Carré se espraia por 300 páginas cheias de suspense, equívocos e pistas falsas, para só no fim revelar a identidade do traidor, Marcelo despacha o tema em 20 segundos, ensanduichando a bomba noticiosa entre recados ao Governo e beijinhos a militantes do PSD. Sabe a pouco.

Falta reflexão moral à acusação de Marcelo. Era importante ouvir a opinião do nosso Presidente sobre o que terá levado Donald Trump a beneficiar o inimigo. Dinheiro? Vingança? Idealismo? Chantagem? Gostava de ler um romance de Graham Greene em que Marcelo, o europeu céptico, denuncia os objectivos do americano ingénuo, porém voluntarioso. Uma sequela a O Americano Tranquilo chamada O Português Frenético.

No entanto, Marcelo Rebelo de Sousa tem razão. As acções de Donald Trump, desde o seu primeiro mandato, indicam um evidente favorecimento à Rússia. O desinvestimento na NATO, a hostilidade a Zelensky, o desrespeito pelos parceiros europeus, tudo contribui para essa tese.

Por outro lado, parece óbvio de mais, não é? Se Trump fosse mesmo um agente russo, ia querer disfarçar ao máximo, certo? O que interessa ao seu suposto patrão é que o activo se mantenha, lá está, activo o máximo de tempo possível, sem levantar suspeitas. Só assim pode fazer o seu trabalho subterrâneo sossegado. Por alguma razão estes espiões são chamados “toupeiras” e não “pavões”.

Ora, Marcelo é um homem inteligentíssimo. Sabe perfeitamente que um agente duplo só tem valor enquanto conseguir preservar a duplicidade. As acções de Trump são demasiado transparentes para poderem ser consideradas encobertas. Apesar de saber isso, Marcelo insiste em fazer a acusação directa. Parece que se está a esforçar para chamar a atenção sobre Trump para a desviar de outro sítio. No fundo, parece que quer apontar para longe a hipótese de haver um Presidente da República que, através de acções desastrosas e intervenções absurdas, serve outros interesses que não os do seu país.

Se isto fosse um romance de espionagem, daqui a algumas páginas íamos descobrir que estas declarações não tinham passado de uma manobra de diversão para camuflar o facto de ser ele, Marcelo, o Presidente da República que é um activo do adversário. Em flashback, o autor iria mostrar as ocasiões em que Marcelo Rebelo de Sousa contribuíra para fortalecer a causa que diz querer combater. As vezes em que, ao provocar eleições desnecessariamente, por exemplo, ajudara os antagonistas a crescer. Ou em que, por falta de sentido de Estado em eventos formais ou por fazer figuras caricatas recorrentemente, promovera o descrédito do sistema democrático actual. Lembrar-nos-ia de quando Marcelo fizera um governo cair por causa do Orçamento, de quando saíra à rua para arranjar um buraco na calçada, de quando dissera que já tinha um barco para tornear as regras do confinamento na praia ou de quando galara o decote de uma moça. E perceberíamos então que, este tempo todo, Marcelo fora um agente duplo ao serviço de André Ventura. Que, durante os dois mandatos de Marcelo, Ventura fora quem mais lucrara pela acção da Presidência, ao ponto de passar de 0 a 60 deputados em poucos anos. Fingindo ser um opositor do populismo anti-democrata, o PR revelar-se-ia como o seu grande patrocinador. Marcelo seria enfim desmascarado, não como um activo russo, mas como um hiperactivo do Chega.

Mesmo assim, não sei se comprava este livro. Gosto dos romances de espionagem mais afastados da realidade.

O hiperactivo do Chega (2025)

References

Top Articles
Latest Posts
Recommended Articles
Article information

Author: Corie Satterfield

Last Updated:

Views: 6237

Rating: 4.1 / 5 (62 voted)

Reviews: 85% of readers found this page helpful

Author information

Name: Corie Satterfield

Birthday: 1992-08-19

Address: 850 Benjamin Bridge, Dickinsonchester, CO 68572-0542

Phone: +26813599986666

Job: Sales Manager

Hobby: Table tennis, Soapmaking, Flower arranging, amateur radio, Rock climbing, scrapbook, Horseback riding

Introduction: My name is Corie Satterfield, I am a fancy, perfect, spotless, quaint, fantastic, funny, lucky person who loves writing and wants to share my knowledge and understanding with you.